7 de fevereiro de 2015

A minha família

Eu moro com meus pais e a minha casa é bagunçada. Essa descrição deveria bastar para entender muita coisa e, com algum esforço, eu acho que basta.

Cresci numa casa térrea, alugada, com dois quartos. Eu dormia com minha irmã, meu irmão e meu avô, todos no mesmo quarto. Meu avô roncava a noite toda, algo como um motor de caminhão e mesmo assim, todo mundo dormia. A casa era bem simples, mas tinha um quintal grande. Na cozinha a gente tinha uma geladeira vermelha, a mesa era de fórmica, assim como os armários. A gente tinha cachorro e alguns gatos que foram surgindo no decorrer da minha infância. Eu morei nessa casa até os 17 anos e então mudamos para uma casa própria. a casa que moro hoje.

A casa que moro hoje é maior, é um sobrado, cada um tem seu quarto, mas meu avô já morreu e minha irmã saiu de casa, está tudo mais vazio. A casa, apesar de grande, continua bagunçada. As coisas somem aqui em casa, eu explico. Se você compra um chocolate pensando em comer ele depois de amanhã, ele terá desaparecido, alguém vai comer. Se você comprar uma xícara bonita pensando que quer tomar seu chá quentinho nela, pode ser que depois de algumas semanas ela esteja quebrada, talvez na lavagem, talvez no esbarrar do armário, "é normal", me falam, "essas coisas acontecem, Camila! É só uma xícara". E eu me irrito, me irrito porque somem as coisas, porque as coisas quebram, mas "é só uma xícara, Camila!". É só uma xícara mesmo e é a minha família, minha família bagunçada, que quebra as coisas e some com tudo. É minha família.

Eu estou lendo "O complexo de Portnoy", do Philip Roth e no livro, o personagem basicamente culpa a família dele por todos os seus problemas, às vezes eu faço isso, mas sei que é mentira, sei que não é assim, é comum a gente ver o lado negativo de tudo com mais facilidade.

Eu fui criada pelos meus pais e meu avô, o que dormia no quarto roncando, era o vô Adelino. Ele me chamava de "nina", abreviação do italiano que trouxe consigo, e sempre beijava minha bochecha sorrindo, me levava para o balé duas vezes por semana e ficava sentado escutando eu ler as histórias sem pé nem cabeça que eu escrevia (sim, eu escrevia histórias sem pé nem cabeça), ele ria e na minha lembrança, ele adorava as minhas histórias.

Meu vô Adelino era alcoólatra e a história que soube, foi que minha vó cansada de lidar com isso, colocou ele para fora de casa. Minha mãe conta que ele ficou na rua alguns dias até que ela soube e o trouxe para a nossa casa, aquela casa térrea lá de cima que contei. Eu não lembro de quando foi isso, acho que era criança demais, a única lembrança que tenho, é só do meu vô sempre presente.

Algo que minha mãe sempre me disse é que sabia que ele não havia sido um bom pai pra ela, justamente pela ausência que a bebida trouxe, mas que ela ficava muito feliz de saber que ele era um ótimo avô. Ele foi mesmo, o melhor que eu pude ter.

A história toda é para falar que hoje, eu lembro de algumas coisas e vejo com outra perspectiva. Lembro que meu vô vivia implicando com meu pai, meu pai sempre ria e não falava nada. Meu pai acordava às 4h da manhã todo dia para ir trabalhar na Wolks, meu pai foi metalúrgico e hoje eu noto o esforço dele em sustentar a família, assim como minha mãe, que sempre vendeu e vende ainda hoje, uma infinidade de coisas, tudo para complementar a renda familiar. Mas não consigo deixar de notar a grandiosidade do meu pai em aceitar ter o sogro morando com ele, amo meu vô, mas lembro dele ser meio pentelho mesmo com meu pai. 

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem da minha mãe que não deixou seu próprio pai na rua só por ele ser bêbado, ela conta que falaram para ela "porque você vai recolher ele? ele bebe tanto que nem sabe que você é filha dele" ao que ela respondeu "mas eu sei que ele é meu pai" e o trouxe para casa.

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem do meu pai, que entende a importância da família por perto e não se importou de dividir sua casa e sua vida com meu avô, mesmo ele implicando com ele, mesmo que isso dificultasse o seu dia-a-dia.

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem do meu avô, que com todos os defeitos dele como pai, foi o melhor avô que eu poderia ter.

A minha família é bagunçada sim, ela me irrita deveras, me faz querer arrancar os cabelos em diversas ocasiões, mas tudo o que ela me oferece, de bom e ruim, me faz o que sou. E hoje eu acordei com muita saudade do meu avô me chamando de Nina e rindo pra mim.

Esse é meu vô Adelino, ele sempre usava chapéu :)





3 comentários:

Nina Galdina disse...

Senti empatia imensa por essa crônica, pois também tenho uma família bagunçada que vive em uma casa idem. E, apesar de tantos rumos errados que cada um foi levando, não tive grandes traumas e soube perdoar os meus pais assim que coloquei meus pés para fora de casa. Hoje, nossa relação é muito melhor.

Bem, família a gente não escolhe, só muito raramente e, no geral, depois de crescidos. O que a gente precisa saber fazer é lidar com a que temos. Até por que, nada é por acaso.

Abraços.

http://ninagaldina.tumblr.com/tagged/blog

Deh disse...

Essa sua crônica familiar é simplesmente LINDA. Linda mesmo. :*



Eu costumo dizer que na casa da minha mãe (onde na verdade só moram agora ela, a mãe dela e minha irmã, mas falo até hoje "lá em casa" e considero a casa de todos os irmãos e tal) se cobrir vira circo, se murar vira hospício. É uma casa não fisicamente bagunçada. Mas somos pessoas bagunçadas.

Descontente disse...

Mesmo sem comentar nunca deixo de dar uma passadinha pra te ler e olha.. Que post mais maravilhoso. Até me motivou a voltar a escrever.
Linda história e o encerramento, com a foto do seu avô, putz...
Espero que sua família tenha tido a oportunidade de ler também!
Beijo