22 de fevereiro de 2015

O burrinho

Quando eu era criança tinha um álbum de figurinhas que chamava "Filhotes fofinhos" eles realmente eram fofinhos, as figurinhas eram peludinhas. Eu adorava!

Um dos filhotes era um burrinho chamado Pupo, isso aí, meu sobrenome e eu achava o máximo um burro chamar Pupo. Bom, cada personagem tinha uma história e sempre tinha uma lição de moral no final.

O Pupo era um mentiroso compulsivo, contava mentiras para tudo. Até que um dia, aconteceu algo grave de verdade e ele foi buscar ajuda dos seus amigos. Mas como ele sempre mentia e todo mundo já estava esperto com ele, ninguém acreditou e o Pupo se fodeu. Não lembro bem o que aconteceu com ele, só que ele, tadinho, se lascou.

A moral da óbvia da história é que contar mentiras é uma coisa muito ruim, a moral implícita é que quando você comete um mesmo erro algumas vezes, você possivelmente vai criar um precedente bem chato de lidar. Mesmo que você não esteja fazendo aquela cagada que já fez antes, vão desconfiar que você está sim, porque aprender que padrões se repetem e se defender disso, é reação.

Logo na minha primeira sessão de terapia tive que falar com qual animal me identificava, disse que era um gato. Hoje, se me perguntassem isso novamente, diria que me identifico com o Pupo, o burrinho. Não pela mentira, mas por me foder em repetir o mesmo erro algumas vezes e não saber como lidar com esse precedente.

Olha o álbum :)

E algumas das figurinhas, mas não tem do Pupo, descobri que eram as mais difíceis de achar.

21 de fevereiro de 2015

Um blog novo

Oi.

Esta é uma postagem para avisar que fiz um blog novo.

Não, este aqui não está esquecido nem abandonado, ele apenas ficará como sempre foi, mais pessoal, mais mimimi, mais eu choramingando quando for preciso, desabafo para não explodir :)

Ele chama Abobrinhas Consistentes, se quiser, passa lá :)

Beijo!

12 de fevereiro de 2015

Um calorzinho sem vergonha

Quando eu era mais nova adorava o frio e obviamente que odiava o calor. Não gostava de jeito nenhum, falava mal, achava chato, era aquele discurso já manjado de quem curte frio. 

Daí que passei por uma fase complicada lá pelos 29 anos [aquele abraço para o retorno de saturno]. Terminei a faculdade, fiz terapia, passei por mudanças significativas, fiquei mal, fiquei bem, fiquei mal pra caralho e daí fui melhorando.

Final de semana passado eu sai usando uma regata. Eu tenho 33 anos e foi a primeira vez que usei uma regata. O motivo de não ter usado antes? Vergonha do braço gordo, vergonha de mostrar como sou e o que sou. Quando a gente é mais nova ou imatura demais para entender o próprio corpo, a gente quase acredita que com a roupa certa, vamos parecer outra pessoa. 

Quase acredita que no frio, com aqueles 500 casacos nos cobrindo dos pés a cabeça, as pessoas não vão notar nossas gorduras, não vão perceber que temos barriga, que temos dobras, que temos braço roliço.

Bom, é mentira. No frio a gente continua gorda, nada disso muda. Nadinha. Hoje percebo que meu discurso de adoração pelo frio veio daí, veio dessa ideia de que me escondendo, talvez eu parecesse diferente, menos gorda, menos eu.

Lá com 30 anos, quando passei por um processo de reeducação alimentar que resultou no emagrecimento de mais de 10kg e que veio no caminho para me gostar mais, eu entendi isso, eu entendi o porque eu não gostava do calor, porque odiava praia, sol e qualquer coisa que me obrigasse a mostrar meu corpo, a ficar mais peladinha.

Era vergonha, dessas que te faz querer ser diferente e chorar por não conseguir se encaixar no que é padrão. Eu sei que esse assunto de falar sobre o próprio corpo e aceitação já tá manjado, mas continuo achando importante falar sobre isso.

Em menos de 30 dias eu saio de férias e um dos lugares que vou tem apenas as praias mais bonitas do mundo. Eu vou usar roupa de praia, mas eu ainda não consigo usar biquíni, tenho vergonha, vou usar maiô, um passo por vez.

Vai ser ótimo, vai ser lindo, vai ter calor de quase 40ºC e vai ter eu com roupa de praia mostrando meu corpo por aí, suando nas regatas, andando descabelada e feliz.

Eu gosto da ideia. Gosto de me ver hoje ousando deixar minha vergonha de lado, mesmo que ainda não consiga usar biquíni, mas já faço muito mais do que fazia há 3 anos, hoje eu me permito muito, corro muito mais, me gosto muito mais :)

É muito válido o esforço em ser uma pessoa sem vergonha, ainda mais com esse calorzinho tropical.




7 de fevereiro de 2015

A minha família

Eu moro com meus pais e a minha casa é bagunçada. Essa descrição deveria bastar para entender muita coisa e, com algum esforço, eu acho que basta.

Cresci numa casa térrea, alugada, com dois quartos. Eu dormia com minha irmã, meu irmão e meu avô, todos no mesmo quarto. Meu avô roncava a noite toda, algo como um motor de caminhão e mesmo assim, todo mundo dormia. A casa era bem simples, mas tinha um quintal grande. Na cozinha a gente tinha uma geladeira vermelha, a mesa era de fórmica, assim como os armários. A gente tinha cachorro e alguns gatos que foram surgindo no decorrer da minha infância. Eu morei nessa casa até os 17 anos e então mudamos para uma casa própria. a casa que moro hoje.

A casa que moro hoje é maior, é um sobrado, cada um tem seu quarto, mas meu avô já morreu e minha irmã saiu de casa, está tudo mais vazio. A casa, apesar de grande, continua bagunçada. As coisas somem aqui em casa, eu explico. Se você compra um chocolate pensando em comer ele depois de amanhã, ele terá desaparecido, alguém vai comer. Se você comprar uma xícara bonita pensando que quer tomar seu chá quentinho nela, pode ser que depois de algumas semanas ela esteja quebrada, talvez na lavagem, talvez no esbarrar do armário, "é normal", me falam, "essas coisas acontecem, Camila! É só uma xícara". E eu me irrito, me irrito porque somem as coisas, porque as coisas quebram, mas "é só uma xícara, Camila!". É só uma xícara mesmo e é a minha família, minha família bagunçada, que quebra as coisas e some com tudo. É minha família.

Eu estou lendo "O complexo de Portnoy", do Philip Roth e no livro, o personagem basicamente culpa a família dele por todos os seus problemas, às vezes eu faço isso, mas sei que é mentira, sei que não é assim, é comum a gente ver o lado negativo de tudo com mais facilidade.

Eu fui criada pelos meus pais e meu avô, o que dormia no quarto roncando, era o vô Adelino. Ele me chamava de "nina", abreviação do italiano que trouxe consigo, e sempre beijava minha bochecha sorrindo, me levava para o balé duas vezes por semana e ficava sentado escutando eu ler as histórias sem pé nem cabeça que eu escrevia (sim, eu escrevia histórias sem pé nem cabeça), ele ria e na minha lembrança, ele adorava as minhas histórias.

Meu vô Adelino era alcoólatra e a história que soube, foi que minha vó cansada de lidar com isso, colocou ele para fora de casa. Minha mãe conta que ele ficou na rua alguns dias até que ela soube e o trouxe para a nossa casa, aquela casa térrea lá de cima que contei. Eu não lembro de quando foi isso, acho que era criança demais, a única lembrança que tenho, é só do meu vô sempre presente.

Algo que minha mãe sempre me disse é que sabia que ele não havia sido um bom pai pra ela, justamente pela ausência que a bebida trouxe, mas que ela ficava muito feliz de saber que ele era um ótimo avô. Ele foi mesmo, o melhor que eu pude ter.

A história toda é para falar que hoje, eu lembro de algumas coisas e vejo com outra perspectiva. Lembro que meu vô vivia implicando com meu pai, meu pai sempre ria e não falava nada. Meu pai acordava às 4h da manhã todo dia para ir trabalhar na Wolks, meu pai foi metalúrgico e hoje eu noto o esforço dele em sustentar a família, assim como minha mãe, que sempre vendeu e vende ainda hoje, uma infinidade de coisas, tudo para complementar a renda familiar. Mas não consigo deixar de notar a grandiosidade do meu pai em aceitar ter o sogro morando com ele, amo meu vô, mas lembro dele ser meio pentelho mesmo com meu pai. 

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem da minha mãe que não deixou seu próprio pai na rua só por ele ser bêbado, ela conta que falaram para ela "porque você vai recolher ele? ele bebe tanto que nem sabe que você é filha dele" ao que ela respondeu "mas eu sei que ele é meu pai" e o trouxe para casa.

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem do meu pai, que entende a importância da família por perto e não se importou de dividir sua casa e sua vida com meu avô, mesmo ele implicando com ele, mesmo que isso dificultasse o seu dia-a-dia.

Meu orgulho pela minha família bagunçada vem do meu avô, que com todos os defeitos dele como pai, foi o melhor avô que eu poderia ter.

A minha família é bagunçada sim, ela me irrita deveras, me faz querer arrancar os cabelos em diversas ocasiões, mas tudo o que ela me oferece, de bom e ruim, me faz o que sou. E hoje eu acordei com muita saudade do meu avô me chamando de Nina e rindo pra mim.

Esse é meu vô Adelino, ele sempre usava chapéu :)





6 de fevereiro de 2015

Sobre o amor

O amor se mostra em várias formas e uma de suas facetas, uma das essenciais eu diria, é quando você tem certeza que, se pudesse, pegaria para si todos os problemas que dificultam o sorriso de quem você ama.

Eu pegaria todos os problemas para mim, porque eu prefiro a ideia de lidar com problemas, do que ter quem eu amo triste.

É clichê, mas quem ama, quer bem sim.

26 de janeiro de 2015

Obrigada, Chimamanda

Eu estou lendo o livro Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie e a minha vontade é de falar para todo mundo ler, estou naquele ponto de achar tudo tão bom, tão coerente e iluminador, que acho injusto algumas pessoas não terem o prazer de poder ler o que ela escreve, tanto que vim aqui escrever sobre isso.

Eu não vou tentar fazer resenha, primeiro porque não terminei o livro e segundo porque não acho que estaria à altura. Definitivamente é um livro para se ler por completo, resenhas não cabem bem.

O que eu posso dizer é que há pouco mais de uma semana, eu tenho me sentindo quase tonta com as coisas que a autora traz, confesso, com um pouco de vergonha, que são coisas que eu não tinha pensado e nem tinha notado, mas acredito que nunca é tarde para descortinar coisas que estão fora do nosso campo de visão.

O livro fala de racismo, de feminismo, de romance, de força e de sentimentos comuns a todos nós. Parece genérico falando assim, né? Mas é porque eu não consigo sintetizar o livro, me sinto meio entorpecida e parece que o que tento dizer é menor perto do livro.

Bom, se você, assim como eu até então, não conhecia a Chimamanda Ngozi Adichie, faça um favor a si mesmo e conheça. Se não tem como ler o livro agora, tem dois vídeos de palestras dela bem bons, que eu acho que são até bem famosos, mas eu também não conhecia.

Esse que ela fala sobre o perigo de acreditar e ouvir uma única história.



E esse, um discurso chamado "Sejamos todos feministas" que também você pode baixar gratuitamente aqui ou aqui para ler ele na integra.

E se nenhuma das minhas palavras te convenceu a ler o que ela tem a dizer, deixo um trecho do discurso dela em "Sejamos todos feministas" aqui embaixo :)

"Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser “benquistos”. Se perdemos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, elogiamos ou perdoamos os homens pelas mesmas razões. Em todos os lugares do mundo, existem milhares de artigos e livros ensinando o que as mulheres devem fazer, como devem ou não devem ser para atrair e agradar aos homens. Livros sobre como os homens devem agradar às mulheres são poucos."




22 de janeiro de 2015

O barulho que eu faço

Há uns dois meses eu decidi dar um tempo de escrever aqui, embasada na ideia de que a paz e o silêncio que eu precisava, talvez estivesse justamente no barulho que eu fazia ao escrever. Me serviu para algumas coisas, não sei se positiva, às vezes parece que me fechei mais no que eu sinto. Muitas coisas antes eu queria compartilhar, hoje eu apenas fico quieta e deixo passar. 

Eu tinha a ideia de que a maturidade me pouparia de certos sentimentos, de certos conflitos, mas o máximo que consegui foi fingir. Fingir que não ligo, fingir que entendo, fingir que não me chateei. Na verdade eu já falei em algum momento da minha vida, meio que brincando, que maturidade é quando você consegue fingir que não liga para algo e convence outra pessoa disso. Toda brincadeira tem seu fundo de verdade.

Eu finjo muito mal, não sei ser madura em nenhuma das esferas, seja em não sentir ou em fingir. Eu tenho 33 anos e não sei lidar com sentimentos que, quando tinha 15 anos, imaginava tirar de letra com esta idade de adulta.

A minha suposta maturidade veio de um jeito torto, veio pelo medo de não agradar, veio pelo medo de ser como eu sou. E o discurso "seja quem você é" de fato é verdadeiro e bonito, mas na vida real, na hora que você sente medo e sente aquela hostilidade da outra parte, muitas vezes fica aquela vontade de ser uma pessoa diferente do que se é. 

Eu tenho algumas sombras comigo que carrego em segundo plano, como a ideia de que sou chata, de que sou grosseira, controladora demais e outras coisas. São ideias plantadas desde cedo sobre quem eu sou. Não sou inocente de achar que essas concepções se criaram gratuitamente, eu sei que tenho culpa em cada uma delas. O negócio é que eu vou me blindando, vou tentando construir um muro para que isso não chegue em mim, que não me afete e me faça acreditar que sou tudo isso de ruim que pensam de mim, mas às vezes cai um tijolo, desmorona tudo e aquilo que eu tentava me proteger, me acerta. Talvez o muro não seja uma boa ideia afinal, talvez quando eu for madura o suficiente essas coisas não irão mais me atingir.

Sim, claro que posso mudar, eu já mudei, mas hoje eu estou assim, sou imatura em uma caralhada de coisas e sinto uma angustia no peito quando me percebo dessa forma, como aconteceu hoje e justamente por isso que eu decidi escrever, porque senti que cheguei na boca do balde, que pode vazar toda a imaturidade que eu tento esconder e escrever é um modo de escoar isso de forma mais segura.

Eu gostei do silêncio por aqui, mas talvez não seja, para mim, o melhor método no processo construtivo de mudança. Quebrar muro faz barulho.